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Ana Carolina MartinsPsicóloga clínica · CRP 04/62687

Depressão pós-parto: o que é esperado e o que pede ajuda

Chorar nos primeiros dias é comum e costuma passar. Quando o sofrimento persiste, muda de natureza e atrapalha a vida, deixa de ser adaptação e passa a ser um quadro que merece cuidado.

Por Ana Carolina Martins, psicóloga clínica · CRP 04/62687

UFMG · FMUSP (USP)


Como diferenciar baby blues de depressão pós-parto?

Pelo tempo e pela intensidade. O baby blues atinge a maioria das mulheres, começa nos primeiros dias após o parto e se resolve sozinho em até duas semanas: choro fácil, oscilação de humor, irritabilidade. A depressão pós-parto dura duas semanas ou mais, pode começar ainda na gestação ou meses depois do parto, e traz desesperança, culpa intensa, perda de prazer e dificuldade de cuidar de si e do bebê. A depressão no período perinatal atinge cerca de uma em cada oito mulheres, tem tratamento, e a demora em procurar ajuda costuma vir da vergonha, não da falta de necessidade.

Existe uma expectativa social de que o nascimento de um filho seja o período mais feliz da vida de uma mulher. Quando não é, e frequentemente não é, ao menos não só isso, o desencontro entre o que se sente e o que se deveria sentir vira uma segunda camada de sofrimento.

Este texto é sobre distinguir o que é adaptação esperada do que merece cuidado. Não para patologizar o puerpério, que já é difícil por si só, mas porque a demora em procurar ajuda costuma vir exatamente da dúvida sobre ter ou não o direito de pedi-la.

O que é esperado

Nos primeiros dias após o parto, a maioria das mulheres passa por um período de labilidade emocional: chora sem motivo claro, oscila entre alegria e tristeza, se irrita com facilidade, se sente sobrecarregada.

Isso é comum, tem relação com a mudança hormonal abrupta, com a exaustão do parto e com a privação de sono, e costuma se resolver sozinho em até duas semanas. Não exige tratamento: exige descanso, apoio prático e alguém que diga que é assim mesmo.

O que muda de natureza

A depressão pós-parto é diferente, e a diferença não é de grau apenas.

Ela persiste para além das primeiras semanas. Traz desesperança, a sensação de que isso não vai melhorar. Traz uma culpa intensa e desproporcional, frequentemente ligada a não estar sentindo o que se esperava sentir. Tira o prazer das coisas, inclusive das que não têm relação com o bebê. Atrapalha o sono mesmo quando há oportunidade de dormir. E dificulta o cuidado de si e, às vezes, o do bebê.

Somando gestação e pós-parto, a depressão perinatal atinge cerca de uma em cada oito mulheres. Não é raridade, não é fraqueza e não é falta de amor.

Se em algum momento surgirem pensamentos de morte, seus ou do bebê, isso pede avaliação imediata, não amanhã. O CVV atende pelo 188, 24 horas, de graça. Em risco imediato, o SAMU atende pelo 192.

A ansiedade perinatal, que quase não se fala

Menos citada que a depressão e igualmente frequente, a ansiedade perinatal aparece como preocupação constante com a segurança do bebê: checar a respiração dele várias vezes por noite, não conseguir delegar o cuidado a ninguém, pensamentos intrusivos assustadores sobre algo acontecer.

Vale dizer com clareza, porque isso aterroriza muitas mulheres em silêncio: pensamentos intrusivos com conteúdo violento ou catastrófico são comuns no pós-parto e, na imensa maioria dos casos, não indicam risco de que algo seja feito. Eles são o sinal de um sistema de alarme em excesso, não de intenção. Ainda assim, precisam ser ditos a alguém, porque guardá-los é o que os torna insuportáveis.

Por que a demora em pedir ajuda

Três motivos aparecem quase sempre.

O primeiro é a normalização: "toda mãe passa por isso". Passa por parte disso, não por tudo, e não indefinidamente.

O segundo é a vergonha. Dizer que não está feliz com o filho que você quis, ou que quis, soa para muita mulher como confissão de fracasso moral.

O terceiro é prático: quem está exausta e sem rede raramente tem tempo, energia ou com quem deixar o bebê para procurar atendimento. É uma das razões pelas quais o atendimento online costuma ser a via viável nesse período.

O que ajuda

Tratamento existe. A psicoterapia tem eficácia demonstrada em pesquisa para a depressão desse período e, quando necessário, caminha junto com o acompanhamento médico e a medicação.

Mas há algo anterior ao tratamento e que também é intervenção: alguém dizer que o que você está sentindo tem nome, é conhecido, acontece com muita gente e não diz nada sobre o tipo de mãe que você é.

Boa parte do sofrimento do puerpério não é individual, é estrutural: mulheres foram feitas para atravessar esse período cercadas, e atravessam sozinhas. Reconhecer isso desloca a pergunta de o que há de errado comigo para o que está faltando ao meu redor. É uma pergunta mais justa e muito mais útil.

Perguntas frequentes

Quantas mulheres têm depressão perinatal?

Uma revisão sistemática com meta-regressão publicada no Journal of Affective Disorders estimou a prevalência global ajustada de depressão perinatal em cerca de 11,9%, somando gestação e pós-parto. Ou seja: aproximadamente uma em cada oito mulheres. É um dos quadros mais frequentes do período, e um dos menos falados.

Sentir vontade de fugir significa que sou má mãe?

Não. Ambivalência é uma das experiências mais comuns e menos ditas do puerpério: amor profundo convivendo com sobrecarga, saudade da vida anterior e vontade de sumir por um dia. Isso não mede o seu amor. O que merece atenção não é o pensamento em si, mas o sofrimento que ele carrega quando você fica sozinha com ele.

Preciso parar de amamentar para fazer tratamento?

Essa é uma decisão médica, individual, e a resposta frequentemente é não: existem opções compatíveis com a amamentação. O que não se sustenta é deixar de tratar por medo de ter que interromper. Essa conversa deve ser feita com o médico, e o acompanhamento psicológico pode acontecer em paralelo em qualquer cenário.

Referências

  1. Cox, J. L., Holden, J. M., & Sagovsky, R. (1987). Detection of Postnatal Depression: Development of the 10-item Edinburgh Postnatal Depression Scale. British Journal of Psychiatry, 150, 782–786. doi:10.1192/bjp.150.6.782
  2. Woody, C. A., Ferrari, A. J., Siskind, D. J., Whiteford, H. A., & Harris, M. G. (2017). A systematic review and meta-regression of the prevalence and incidence of perinatal depression. Journal of Affective Disorders, 219, 86–92. doi:10.1016/j.jad.2017.05.003
  3. Cuijpers, P., Franco, P., Ciharova, M., Miguel, C., Segre, L., Quero, S., & Karyotaki, E. (2023). Psychological treatment of perinatal depression: A meta-analysis. Psychological Medicine, 53(6), 2596–2608. doi:10.1017/S0033291721004529
  4. National Institute for Health and Care Excellence. (2014, atualizada em 2020). Antenatal and postnatal mental health: clinical management and service guidance (CG192). acessar
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