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Ana Carolina MartinsPsicóloga clínica · CRP 04/62687

O luto que a sociedade não reconhece

Algumas perdas não recebem velório, licença nem pêsames. Não são menores, são apenas mais solitárias, e essa solidão tem nome e tem literatura.

Por Ana Carolina Martins, psicóloga clínica · CRP 04/62687

UFMG · FMUSP (USP)

O que é luto não reconhecido?

É o luto por uma perda que a sociedade não valida como perda, e por isso não oferece ritual, apoio nem permissão para ser vivida publicamente. Aparece na perda gestacional, no fim de um relacionamento não oficial, na morte de um animal, no luto por alguém que ainda está vivo, na perda de um projeto de vida. O conceito foi descrito por Kenneth Doka e ajuda a entender por que essas perdas costumam doer por mais tempo: não é que a dor seja desproporcional, é que ela não encontrou onde ser recebida.

Quando alguém morre, a sociedade tem um roteiro. Existe velório, existe licença no trabalho, existem pessoas que aparecem com comida. Há uma sequência de gestos combinados que dizem, sem precisar dizer: isto foi uma perda, você tem direito de sofrer.

Há perdas, porém, para as quais nada disso existe. E é aí que a dor fica mais solitária, não porque seja menor, mas porque não encontrou lugar.

O conceito

Kenneth Doka descreveu esse fenômeno como luto não reconhecido: o luto por uma perda que não é socialmente validada e que, por isso, não recebe ritual, apoio nem autorização para ser vivida abertamente.

O nome importa. Muita gente que atravessa esse tipo de perda conclui que há algo errado consigo: que está sofrendo demais, por tempo demais, por algo que ninguém mais considerou grave. Descobrir que a experiência tem nome e literatura costuma produzir um alívio imediato, porque desloca o problema: não é você que é excessiva, é o entorno que não soube receber.

Onde ele aparece

A lista é mais longa do que parece.

A perda gestacional, em qualquer momento, frequentemente sem corpo, sem certidão, às vezes sem que outras pessoas soubessem da gestação. O fim de um relacionamento que não era oficial. A morte de um animal com quem se conviveu por quinze anos. A perda de alguém que ainda está vivo, como no avanço de uma demência. O luto por suicídio ou por overdose, que vem cercado de julgamento em vez de acolhimento. A perda da saúde, da fertilidade, de um projeto de vida. E o luto de quem migrou, que perdeu um país, uma língua cotidiana, uma rede inteira, e que ninguém trata como perda porque foi uma escolha.

"Você é jovem, pode tentar de novo." "Era só um cachorro." "Vocês nem estavam juntos oficialmente." Frases ditas para consolar que comunicam, na prática: isso não foi grande o bastante.

Por que a falta de ritual pesa tanto

Rituais não são formalidade. Eles cumprem funções psicológicas concretas: marcam publicamente que houve uma perda, reúnem quem se importa, dão um lugar e um tempo para a dor, e autorizam o enlutado a se comportar como enlutado.

Sem ritual, tudo isso precisa ser produzido individualmente, e quase ninguém tem energia para inventar sozinha o próprio velório. O resultado costuma ser voltar ao trabalho na segunda-feira como se nada tivesse acontecido, o que não significa que nada aconteceu. Significa que o processo foi para dentro.

Como o luto realmente funciona

A ideia de que o luto tem cinco estágios sequenciais é a mais conhecida e uma das menos precisas.

Modelos contemporâneos descrevem outra coisa. O modelo do processo dual, de Margaret Stroebe e Henk Schut, propõe que quem está enlutado oscila entre dois movimentos. Voltar-se para a perda, sentindo, lembrando, chorando. E voltar-se para a restauração, lidando com a vida prática, assumindo novos papéis, se distraindo. Essa oscilação não é fuga nem inconsistência. É o mecanismo que torna o processo suportável.

Saber disso alivia uma cobrança muito comum: a de quem se sente culpada por ter passado um dia bem, ou por ter rido de alguma coisa, e interpreta isso como deslealdade.

O que ajuda quando não há reconhecimento

Nomear. Dizer a alguém que aquilo foi uma perda, com essa palavra.

Encontrar ao menos uma pessoa que não minimize. Nem sempre é a mais próxima, e não precisa ser muita gente: uma costuma bastar.

Criar algum gesto que marque, mesmo pequeno e mesmo privado: uma data lembrada, um objeto guardado, um lugar. Ritual improvisado ainda é ritual.

E, quando o entorno não consegue oferecer isso, buscar um espaço em que a perda seja tratada pelo tamanho que ela tem para você, e não pelo tamanho que ela teria para os outros.

Perguntas frequentes

Quais perdas costumam ser não reconhecidas?

Perda gestacional e aborto espontâneo, morte de um animal de estimação, fim de relacionamentos não oficiais ou não assumidos, luto de quem perdeu alguém por suicídio ou por uso de substâncias, o luto antecipatório de quem acompanha uma demência, a perda da saúde ou de um projeto de vida, e o luto de quem migrou e perdeu o país que conhecia.

É verdade que o luto tem cinco estágios?

É uma simplificação popular que a prática clínica não sustenta. Modelos contemporâneos, como o modelo do processo dual de Stroebe e Schut, descrevem o luto como uma oscilação entre se voltar para a perda e se voltar para a reconstrução da vida, e não como uma sequência fixa de etapas a serem vencidas.

Dias em que estou bem significam que superei ou que não amava o bastante?

Nenhum dos dois. Oscilar faz parte do funcionamento normal do luto: há momentos em que a dor ocupa tudo e momentos em que a vida prática retoma o primeiro plano. Esses intervalos não são traição nem cura: são o que torna o processo suportável.

Referências

  1. Doka, K. J. (2002). Disenfranchised Grief: New Directions, Challenges, and Strategies for Practice. Champaign, IL: Research Press.
  2. Stroebe, M., & Schut, H. (1999). The Dual Process Model of Coping with Bereavement: Rationale and Description. Death Studies, 23(3), 197–224. doi:10.1080/074811899201046
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