Você não pode carregar a dor do outro
Existe uma diferença entre estar presente e assumir a dor de alguém como tarefa própria. A primeira sustenta; a segunda esgota os dois.
Por Ana Carolina Martins, psicóloga clínica · CRP 04/62687
UFMG · FMUSP (USP)
Como ajudar quem sofre sem adoecer junto?
Estando presente sem assumir a responsabilidade pelo desfecho. Você pode escutar, oferecer sua estabilidade, dividir o que sabe e permanecer por perto. O que não é possível, nem ajuda, é resolver a dor do outro, apressar o processo dele ou sentir por ele. Quando o cuidado vira obrigação de melhorar alguém, ele passa a exigir um resultado que não está sob o seu controle, e é aí que quem cuida se esgota.
Você não pode salvar ninguém.
Você pode estar presente com os outros, oferecer sua estabilidade, sua sanidade, sua paz. Você pode até compartilhar seu caminho com eles, oferecer seu ponto de vista.
Mas você não pode tirar a dor deles.
A diferença que muda tudo
Existe uma distância importante entre estar com alguém que sofre e assumir o sofrimento dele.
Estar com é presença. Você escuta, permanece, suporta o desconforto de não ter solução. Continua sendo você, com os seus limites, o seu cansaço, a sua vida acontecendo em paralelo.
Assumir é outra coisa. É quando o bem-estar do outro vira a sua tarefa, quando o dia dele determina o seu, quando você começa a se sentir responsável por um resultado que nunca esteve nas suas mãos. Aí a relação deixa de ter duas pessoas.
Quem se dissolve no sofrimento do outro costuma acreditar que isso é a forma mais alta de amor. Frequentemente é a forma mais rápida de ficar indisponível para ele.
Por que a gente faz isso
Raramente por escolha consciente.
Para muita gente, cuidar foi o caminho pelo qual se aprendeu a ter valor. Ser útil, resolver, antecipar necessidades. Nesse arranjo, ver alguém sofrendo sem poder fazer nada não é só triste: é ameaçador, porque coloca em questão a própria função.
Há também a versão mais simples: a dor do outro é insuportável de assistir. Tentar resolvê-la é, em parte, uma tentativa de aliviar o que você sente ao vê-la. Não é egoísmo; é humano. Mas vale reconhecer, porque muda o que você faz em seguida.
O que sobra quando não dá para resolver
Quase tudo o que importa, na verdade.
Nos contextos onde não há solução possível, como o adoecimento grave, o luto e uma perda irreversível, quem trabalha com isso aprende rápido que a presença não é o prêmio de consolação. É a intervenção.
Ficar. Não apressar. Não preencher o silêncio com frases feitas. Não exigir que a pessoa esteja melhor amanhã para que a sua ajuda tenha valido. Suportar junto aquilo que não tem conserto é uma das coisas mais difíceis e mais úteis que um ser humano pode oferecer a outro.
E cuidar de quem cuida
Se você é a pessoa para quem todo mundo liga, provavelmente já ouviu que precisa se cuidar. E provavelmente achou a recomendação um pouco vazia.
O que costuma ajudar mais do que a recomendação genérica é uma pergunta mais precisa: o que exatamente eu estou tentando garantir aqui? Frequentemente a resposta é algo como que ela fique bem, e reconhecer que isso não está sob o seu controle é o começo de conseguir cuidar sem se dissolver.
Você não pode trilhar o caminho para os outros. Não pode oferecer respostas que só a experiência deles vai dar. O que você pode é não deixá-los sozinhos enquanto caminham. E isso, ao contrário do que parece, é bastante.
Perguntas frequentes
Não me importar tanto é a solução?
Não, e essa costuma ser uma falsa saída. A alternativa ao esgotamento não é a indiferença: é a diferença entre compaixão e fusão. Na compaixão você permanece uma pessoa separada, que sente junto e continua tendo seus próprios limites. Na fusão, o estado emocional do outro passa a determinar o seu, e aí não sobra ninguém em pé.
Como saber se estou passando do ponto?
Alguns sinais recorrentes: você pensa na situação da pessoa fora dos momentos de contato, se sente responsável quando ela não melhora, evita falar dos seus próprios problemas porque os dela parecem maiores, e sente irritação seguida de culpa. Nenhum deles isolado é definitivo; juntos, costumam indicar que o limite ficou para trás.
O que dizer para alguém que está sofrendo?
Menos do que se imagina. Frases que tentam consertar, como "vai passar", "podia ser pior" e "pelo menos", costumam produzir distância. O que sustenta é mais simples: dizer que você está ali, perguntar como a pessoa está sem esperar uma resposta positiva, e tolerar o silêncio sem preenchê-lo.
Referências
- Neff, K. D. (2003). Self-Compassion: An Alternative Conceptualization of a Healthy Attitude Toward Oneself. Self and Identity, 2(2), 85–101. doi:10.1080/15298860309032
- Hayes, S. C., Luoma, J. B., Bond, F. W., Masuda, A., & Lillis, J. (2006). Acceptance and Commitment Therapy: Model, processes and outcomes. Behaviour Research and Therapy, 44(1), 1–25. doi:10.1016/j.brat.2005.06.006
